Vera Diegoli January 2003
A divulgação do conhecimento científico, o resgate do saber das comunidades tradicionais e dos povos indígenas, e a educação para o futuro são ferramentas de apoio aos projetos para a conservação do patrimônio natural do Brasil. O país tem a maior diversidade de espécies de vegetais e plantas, cerca de 20 por cento de todas as formas de vida da Terra.
A informação sobre os benéfícios que a pesquisa e o uso racional da nossa diversidade biológica podem trazer para a sociedade - como a descoberta de princípios ativos para remédios, de novos alimentos, e de produtos que gerem renda para famílias - despertam uma maior preocupação com os impactos provocados pela ação humana sobre o equilíbrio dos ecossistemas.
A ignorância sobre esse imenso potencial, que se perde a cada dia, imobiliza e impede o cidadão comum de exercer pressão sobre o poder público para investir nos programas nacionais voltados para o caminho do desenvolvimento sustentável.
Os textos acadêmicos consideram o desenvolvimento sustentável herdeiro do ecodesenvolvimento, termo citado, em 1973, pelo canadense Maurice Strong e depois formulado pelo economista polonês, naturalizado francês, Ignacy Sachs, que viveu no Brasil durante 14 anos. Sachs definiu os princípios do ecodesenvolvimento: a satisfação das necessidades básicas; a solidariedade com as gerações futuras; a participação da população envolvida; a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente; a elaboração de um sistema social que garanta emprego, segurança social e respeito a outras culturas; e programas de educação.
Os debates em torno do ecodesenvolvimento amadureceram e, em 1987, o documento "Nosso Futuro Comum", o Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, estabeleceu o conceito de desenvolvimento sustentável como aquele capaz de atender às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem as suas próprias necessidades.
Da teoria à prática, há um longo caminho a percorrer. São poucas as experiências, que tenham comprovado o objetivo de aliar o uso sustentável dos recursos ao desenvolvimento econômico e social de uma determinada comunidade.
Infelizmente, o termo desenvolvimento sustentável é hoje empregado de maneira indiscriminada, muitas vezes como mero instrumento de pro-moção e sem compromisso algum com o conceito original.
O jornalismo, especializado em ciência e meio ambiente, tem um papel importante na formação do cidadão, que está disposto a reflexir sobre mudanças de comportamentos e padrões de produção e consumo, compatíveis com a conservação da diversidade da vida na Terra.
O mercado de trabalho ainda é restrito e enfrenta as dificuldade decorrentes da atual crise dos meios de comunicação, que provoca o fechamento de vagas em todas as áreas do jornalismo.
Tenho o privilégio de ser a editora-chefe do Repórter Eco, cargo que ocupo há mais de 11 anos, desde que ajudei a criar a revista semanal sobre meio ambiente. É um dos raros projetos remanescentes Rio-92 - A Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.
O programa, veiculado pela TV Cultura de São Paulo para toda a Rede de TV Educativa, conquistou o respeito de cientistas, estudiosos, institutos, ongs ambientalistas e de um público diversificado e exigente que pede qualidade de informação.
Após a cobertura da Rio-92, o Repórter Eco tomou o formato atual e se manteve, acredito que pelo esforço da equipe e, principalmente, graças a uma linha editorial dirigida para a divulgação dos projetos científicos, ações e pesquisas nacionais e mundiais que apontam soluções para os problemas ambientais. A beleza das imagens, o texto preciso e a informação apurada sempre foram algumas das marcas elogiadas pelos te-lespectadores.
O programa sobreviveu ao perigo de extinção, ganhou densidade e aprofundamento com a integração de profissionais conceituados, como o jornalista Washington Novaes, e tem atualmente um espaço específico para a reflexão dos temas ligados à biodiversidade brasileira.
A Cultura, uma emissora pública, em parceria com uma grande empresa nacional, lançou em 2001 um projeto pioneiro sobre biodiversidade, que além de manter o quadro no Repórter Eco, produz documentários e o programa mensal Biodiversidade-Debate, do qual também faço parte como editora-chefe.
Existem dificuldades, principalmente econômicas, para sustentar os projetos de uma TV Pública. Mas não faltam vontade e dedicação para tentar superá-los.
Eu exercito o jornalismo ambiental sempre motivada pela esperança na capacidade de transformação do ser humano e na melhoria da condição de vida da população.
Esperança que se renova quando observo, como integrante do júri, a quantidade e a qualidade de trabalhos inscritos a cada nova edição do Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica. Uma iniciativa nobre da aliança entre a Conservation International e a Fundação SOS Mata Atlântica, que estimula e valoriza o trabalho árduo dos jornalistas da área.

